Dave Logan
SPIDER - NOIR (2026) de Oren Uziel, Steve Lightfoot - Uma performance visceral que transforma dúvidas em certeza absoluta.
O detetive particular Ben Reilly é contratado para casos simples, até que gângsteres, monstros e uma misteriosa femme fatale tecem uma teia que o obriga a confrontar seu passado como o único super-herói de Nova York: O Spider.

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ANÁLISE:
A dúvida sobre Nicolas Cage ser um bom Homem-Aranha começa a perder espaço logo nos minutos iniciais da nova série do Aranhaverso pela Prime Video: Spider-Noir. Desde que a animação Homem-Aranha: No Aranhaverso foi lançada e expandiu o multiverso do Cabeça de Teia, especulava-se sobre vários projetos de diferentes Homens-Aranhas — tanto que tivemos agora o lançamento de Spider-Noir que, de certa forma, se torna uma grata surpresa.
A primeira aparição do Homem-Aranha Noir foi em 2008, quando a Marvel realizou uma fase "Noir" para alguns de seus personagens. A fama do herói foi tomando espaço na mídia graças à animação feita pela Sony (Homem-Aranha: No Aranhaverso), na qual Nicolas Cage dava voz ao personagem. Hoje, o ator vive Ben Reilly em carne e osso nas telinhas do streaming.
Sem poderes, não há responsabilidade.
Spider-Noir contém oito episódios que compilam a sua primeira (e talvez única) temporada, mas isso não quer dizer que a experiência se torne algo ruim. Muito pelo contrário: a série entrega um ótimo tom, que muda toda a perspectiva não só do personagem, mas de toda a narrativa.
Aqui, à medida que a história começa a se desenrolar, vemos em flashbacks a origem de Ben ao conseguir seus poderes. Com isso, a narrativa não perde tempo olhando para trás para se preocupar com o início de tudo — já que não precisa —, e o primeiro episódio começa nas alturas, literalmente.

O cenário temático da década de 1930 — onde a série se propõe a realizar algo incrível que quase se torna um convite para presenciar a vida naquela época — parcialmente se transforma em um personagem, pois é através dele que o "Spider" consegue ser mais presente. O aspecto e a atmosfera noir caem como uma luva para essa história. Se nos quadrinhos isso já funcionava bem, em tela tudo muda para melhor; o conceito visual é algo primoroso.
Ao pensar em como seria Nicolas Cage como um Cabeça de Teia, é óbvio que surgiriam determinadas dúvidas sobre o seu desempenho. Mas Cage já se aventurou em outros papéis de personagens de histórias em quadrinhos, como Johnny Blaze em Motoqueiro Fantasma, lançado em 2007, e também a drástica participação no filme The Flash, lançado em 2023, onde o ator fez uma ponta como Superman (já agradeceu por esse projeto dos anos 90 nunca ter dado certo?).


Dentro da série, Cage cria um arco interessante para o seu personagem através da indecisão e do alcoolismo. Sua performance se justifica pelo negativismo do próprio Ben Reilly em ser o "Spider" — que, mesmo recluso do conceito heroico, ainda se esforça para salvar a sua cidade.
Não é só Nicolas que tem um bom desempenho na série. Todo o elenco de apoio se mostra eficiente o tempo todo, dando força para o Spider ser o que é e o que precisa ser. O antagonismo e vilania de Cabelo de Prata (Brendan Gleeson) é o oposto de Ben, já que tudo o que ele deseja é poder e lealdade. Seus companheiros na parte da investigação e mistério, comandados por Joseph Robertson (Lamorne Morris) e Janet (Karen Rodriguez), têm papéis importantes, formalizam uma boa química e mantêm um ótimo apoio para Cage quando os três estão em cena.
Dentro dessa primeira temporada, também vemos a tentativa de criação do Sexteto Sinistro. A evidência começa a tomar forma quando o Homem-Areia e o Shocker demandam uma boa participação, cabendo ao nosso herói cuidar disso e de todos.
Mesmo contendo um bom clima de mistério e ação bem dirigida, Spider-Noir também traz consigo uma boa dose de humor ácido que completa não só a dinâmica do enredo, mas também o personagem central, que através disso performa um ótimo sarcasmo e piadas afiadas consigo mesmo e com os demais.

Quando a história vai chegando ao final, a narrativa acompanha o ritmo para deixar o clímax essencial para o desfecho — o embate entre herói e vilão acontece dentro de Nova York de uma maneira simbólica, interessante e justa para a trama em si. Tudo se conecta novamente, principalmente as pautas que fazem um herói ser o que é. Já Lin Jun Li, a Gata Negra, fica por conta do interesse (não tão) amoroso de Ben, onde a desenvoltura da relação dos dois assemelha-se a um jogo de gato e rato.
Da dúvida à certeza absoluta, Spider-Noir não só cala a boca de todos que duvidaram de Cage, mas também cria uma outra vertente para o mundo dos heróis nas telas: o noir. A primeira temporada começa e termina bem, mas a verdadeira cereja do bolo está no miolo de tudo ou, em outras palavras, o desenvolvimento de arcos e personagens se torna o grande carro-chefe da nova série do Prime Video.

NOTA DO CRÍTICO: 9.0/10




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