Educação à deriva: Indicação política aprofunda crise nas escolas de Leme
ossível escolha de secretário sem vínculo com a área expõe improviso administrativo e acende alerta entre professores, pais e vereadores
Escolas municipais de Leme enfrentam problemas estruturais graves, enquanto a condução da Secretaria de Educação segue marcada por decisões políticas e distanciamento da realidade escolar. A simples possibilidade de nomeação de um político sem formação ou experiência educacional para comandar a Secretaria Municipal de Educação de Leme foi suficiente para provocar um abalo profundo no já fragilizado sistema de ensino da cidade. O episódio revela mais do que uma escolha administrativa questionável: expõe uma gestão desconectada da realidade escolar e disposta a tratar a educação como peça de negociação política.
A educação municipal de Leme atravessa um de seus momentos mais delicados. O diagnóstico é conhecido, documentado e amplamente relatado por professores, servidores, pais e órgãos de controle: prédios escolares deteriorados, infiltrações, rachaduras, riscos estruturais, ausência de acessibilidade, instalações elétricas precárias e falta crônica de manutenção básica. Um cenário incompatível com qualquer discurso oficial que tente vender normalidade.
É nesse contexto de abandono material e desorganização administrativa que surge a ventilada indicação do vereador e advogado Elias Ferrara para a Secretaria de Educação a partir de 2026. A reação foi imediata e previsível. Educadores da ativa e aposentados classificam a possibilidade como o símbolo máximo de uma gestão que já não consegue disfarçar o improviso.
A crítica central não é pessoal, mas técnica. A rede municipal atende mais de 11.500 alunos e mobiliza cerca de 1.000 servidores. Administrar uma estrutura dessa magnitude exige conhecimento pedagógico, experiência em políticas educacionais e sensibilidade para lidar com a realidade escolar. Nada disso pode ser substituído por conveniência política.
Enquanto faltam recursos para o essencial — manutenção predial, ampliação de vagas e melhorias estruturais, inclusive com apontamentos formais do Tribunal de Contas do Estado — sobram gastos questionados em programas de eficiência duvidosa. Projetos como robótica educacional e aquisições de materiais com valores considerados excessivos já chamaram a atenção do Ministério Público e são alvo de investigações judiciais.
Câmara Dividida, Posturas Reveladoras
A repercussão do caso expôs também as fissuras dentro da Câmara Municipal. Vereadores eleitos, com mandato consolidado, posicionaram-se com maior clareza. Já suplentes em exercício optaram, majoritariamente, por discursos evasivos ou silêncio estratégico — postura interpretada como alinhamento automático ao Executivo para preservação de cargos temporários.
Dos 13 vereadores, apenas uma minoria assumiu posição firme contrária à indicação. A maioria preferiu a neutralidade conveniente, transferindo toda a responsabilidade ao Executivo, mesmo diante da gravidade do tema.
Esse comportamento reforça a percepção de que a política local, em vez de funcionar como contrapeso institucional, muitas vezes atua como extensão do poder executivo.
Um Sinal de Alerta
Mais do que um debate sobre nomes, a possível nomeação escancara uma crise estrutural: a distância entre quem governa e quem vive diariamente a realidade das escolas. Insistir em indicações políticas para áreas técnicas não é apenas um erro administrativo — é um risco social.
Educação não admite improviso. Cada decisão equivocada custa caro e seus efeitos não aparecem nas próximas eleições, mas na formação de uma geração inteira. Quando a educação deixa de ser prioridade e passa a ser moeda de troca, quem paga a conta são os alunos, os professores e o futuro da cidade.
Fonte:
Apuração própria com base em informações públicas, manifestações de educadores, dados do Legislativo municipal e registros de órgãos de controle.





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