Dave Logan
HAMNET - A vida Antes de Hamlet (2025) de CHLOÉ ZHAO - A arte como processo de cura
William Shakespeare e a sua esposa, Agnes, celebram o nascimento do seu filho, Hamnet. No entanto, quando a tragédia atinge e Hamnet morre ainda jovem, isso inspira Shakespeare a escrever a sua obra-prima intemporal, Hamlet.
William Shakespeare é um nome amplamente conhecido em diversas mídias — o que faz total sentido, considerando o impacto de suas obras literárias e teatrais. No cinema, sua vida já foi adaptada algumas vezes, mas o foco costuma recair quase sempre sobre suas criações, e não sobre o homem por trás delas.
HAMNET - A Vida Antes de Hamlet é um filme que vem conquistando o público ao apresentar a condição humana "à flor da pele", emoldurada por um cenário rico em detalhes. A obra é uma adaptação do livro de Maggie O'Farrell (2020) que, embora seja uma ficção, carrega verdades profundas em sua essência.

"Ser ou não ser?... Eis a questão!"
Essa pergunta ecoa através do tempo e do espaço. Carregando uma filosofia oculta, seu intuito é provocar a reflexão sobre tudo e todos, fruto do pensamento inquieto de Shakespeare. O filme expressa essa grandiosidade por meio do sentimento humano, moldando a história conforme os acontecimentos transformam a imagem de "Will" no gênio que conhecemos.
Essa transição, no entanto, não é leve. É preciso atravessar o luto para narrar a história como ela é. Esse é o caso de sua obra mais famosa, Hamlet, concebida a partir da perda de seu filho, Hamnet. Com uma estética voltada ao naturalismo, o filme elabora um dinamismo preciso entre cena e roteiro. Os enquadramentos panorâmicos captam a essência e os pontos de fuga como se a perspectiva artística tivesse voz própria, elevando o resultado final.

O roteiro é vivo e exala uma concepção que remete aos paralelos teatrais — o berço da identidade de William. Com poesia cênica e sentimentalismo onipresente, a diretora Chloé Zhao sabe onde quer chegar. Antes do luto, testemunhamos a construção de um casal, de uma família e de sonhos postos em prática.
Ao levar essa história para as telas, Zhao mergulha na vida e na morte de Shakespeare. A presença do autor transborda no filme, muito graças à atuação de Paul Mescal, que entrega mais do que técnica: ele entrega a alma ao personagem.
O que torna Hamnet um filme preciso? Quando o tema central atinge sua real importância, o longa explora a sensação de vazio como uma prisão de si mesmo. Ele define a arte como o remédio para o casal William e Agnes (Jessie Buckley), que volta a enxergar cor na vida por meio da criação. O filme usa a imagem para fazer o espectador "sentir" o cinema, resgatando uma profundidade sentimental que por vezes parece esquecida.
Falar de Shakespeare é, automaticamente, falar de arte em grande escala. Ver o bardo interpretado por alguém que compreende seu valor nos transporta de volta ao início de tudo. Hamnet - A Vida Antes de Hamlet é uma obra necessária. Independentemente do tema, o cinema precisa dessa profundidade. O filme mostra-se competente o suficiente para se tornar uma referência no gênero, chegando com força total ao Oscar 2026 com oito indicações.




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