Dave Logan
RESIDENT EVIL (2026) - ZACH CREGGER - História paralela, linguagem de videogame e o tiro no escuro que deu certo
Um entregador de medicamentos se vê em uma luta desesperada pela sobrevivência contra criaturas mutantes e sedentas de sangue.
Nunca fui um verdadeiro consumidor de videogames durante a vida, mas às vezes me arriscava aqui e ali e tentava jogar algo. Com as minhas breves experiências, descobri um jogo de PS2 que, por fim, se tornaria o meu favorito: o tão aclamado e adorado Resident Evil 4. Que jogo!
Não é à toa que a franquia de jogos Resident Evil conta com um oceano de fãs de todas as gerações. Quanto mais a franquia se tornava famosa, mais próximo ficava o momento de essas histórias irem para o cinema. E foi o que aconteceu.
Em 2002, o cinema recebeu o primeiro filme de uma grande leva de seis longas protagonizados por Milla Jovovich. Resident Evil agora "residia" também nas telas de cinema. Mesmo sofrendo drásticas críticas e apresentando uma narrativa que fugia totalmente da lore dos jogos, os filmes resistiram ao tempo, aos fãs e às críticas, estando sempre ali, aguentando tudo e lançando mais um capítulo.

Mas... Resident Evil ainda mantinha a falta de comprometimento com as histórias originais dos jogos. Tudo sempre mudava — era moldado como algo "promissor" por uma ideia que já nasceu morta no cinema —, com exceção das animações, que resgatavam a essência dos jogos e faziam jus ao título Resident Evil. As animações sempre faziam bonito e alegravam os fãs, porque sabiam o que dava certo.
Em 2022, a Netflix deu um passo à frente e tentou remodular Resident Evil — e, minha nossa senhora, nada funcionou.
Em 2026, mais uma tentativa de adaptar Resident Evil foi lançada. Este novo projeto busca uma maneira alternativa de reformular tudo. Será que deu certo?
Ele dispensa todos os personagens principais que já vimos e conhecemos nos jogos de Resident Evil e coloca um NPC para ser o protagonista de uma história paralela dentro do mesmo universo. Quais as chances de dar certo? É exatamente esse tiro no escuro que sustenta a trama simples de um filme simples. Nesse novo — ou primeiro — capítulo, a forma de impor o método de sobrevivência a qualquer pessoa formaliza a ideia do longa: não precisa ser um profissional para se salvar; apenas precisamos querer nos salvar. Isso fica por conta do protagonista Bryan (Austin Abrams), que trabalha apenas com entregas e tem algo para entregar em Raccoon City. Porém, a cada quilômetro que se aproxima, mais estranhas as coisas vão ficando.

Óbvio que o filme não reinventa a roda, mas traz uma dinâmica pouco vista no cinema atual. Não apenas vemos uma história de Resident Evil, mas o filme coloca métodos de jogabilidade em cena, quase simbolizando uma fase ou a lore de um determinado jogo. Mesmo sendo bem presente, a essência do cinema não é deixada de lado; as duas coisas trabalham juntas para que a experiência de ver o filme seja nostálgica e, ao mesmo tempo, inovadora para a franquia nos cinemas.
Bryan, aos poucos, deixa seu trabalho de lado para tentar sobreviver a algo que jamais viu — ou jamais ousou pensar. O que está acontecendo com essas pessoas? Durante o filme, a maneira como o diretor explora o medo e a sensação de claustrofobia está nas condições de filmagem. Quando a cena ocorre dentro do carro ou em alguma estrada, vemos apenas o essencial para não nos perdermos na escuridão absoluta, como se o farol fosse o guia principal diante da atmosfera contida.
A cada cena, surge uma nova referência (o fã animado, nesse caso, se emociona ou se empolga). Mesmo que a abordagem não precise de tais referências, é legal vê-las na tela, onde nada atrapalha e tudo está ali para provar que é possível fazer algo diferente com temperos que já conhecemos.
Muito se pensa durante o tempo de tela deste filme... isso é realmente Resident Evil? Essa pergunta gera determinado debate, ainda mais quando procuramos as polêmicas da produção. Para alguns, o filme só usa o nome da franquia para contar uma história paralela; para outros, a ideia de adaptar algo fora da linha narrativa principal é uma boa jogada para começar — novamente — do zero. Mas e você, de qual lado está?
Assim como a atmosfera de terror é bem presente, o novo longa também eleva algumas piadas que melhoram a cena em si — sem desconstruir ou quebrar a seriedade. São apenas alguns comentários de Bryan quando algo começa a sair do controle. Antes do corte final, este filme continha mais piadas do que o resultado apresentado, mas o diretor quis deixar algumas de lado para não perder a essência de Resident Evil. A medida entre o medo e o alívio cômico funciona muito bem e, no final, faz toda a diferença.

A linha narrativa é, de fato, algo incrível e que se sustenta sem dificuldade alguma. Bryan só precisa ir do ponto A ao ponto B, enfrentando vários obstáculos biológicos pelo caminho. Dentro desse trajeto, vemos um arco de desenvolvimento interessante do personagem principal, que não se diminui em meio ao caos e, diante do desespero, tenta sempre uma maneira de salvar a própria pele. A ideia de sustentar o personagem com o desespero de enfrentar algo jamais visto por ele — e conseguir se safar disso — mostra uma evolução comparável à jogatina de um jogo de fases: o diretor nos faz imaginar um controle nas mãos para ir jogando fase por fase até chegar ao grande desafio.
Com menos, o diretor Zach Cregger faz demais. Ele vive a atmosfera nunca antes atingida por Resident Evil nos cinemas e ainda acrescenta a essência de jogabilidade — o que muda tudo para melhor. Pensar em como o diretor gosta de trabalhar tais tópicos diz muito sobre sua visão de cinema ou até mesmo de filmagem. Cregger gosta de manter o suspense diante de coisas simples que podem virar algo assustador — algo que tire o sossego de quem está vivendo a situação, como no caso de Noites Brutais e também de A Hora do Mal.

Mas... o novo Resident Evil é bom? Não é só bom: o longa se destaca como algo excelente dentro das perspectivas em que a trama se encaixa. É um filme sincero, que conta sua história paralela. A partir dessa questão de paralelismo, pensamos que os grandes personagens da franquia estão em outra missão; por isso, Bryan é quem deve lutar por sua vida, já que ninguém fará isso por ele.
NOTA DO CRÍTICO: 9.0/10




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