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Leme,06/10/2026

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Dave Logan

DIGGER (2026) de ALEJANDRO GONZÁLEZ INÁRRITU - Atuações afiadas não impedem DIGGER de se tornar uma sátira superficial.

O homem mais poderoso do mundo embarca em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade.


DIGGER (2026) de ALEJANDRO GONZÁLEZ INÁRRITU - Atuações afiadas não impedem DIGGER de se tornar uma sátira superficial.

Ao que tudo indicava — por conta do grande marketing que DIGGER teve desde o início da sua produção —, o longa seria um estrondo, bem visto e bem procurado. O marketing desse novo projeto de Alejandro González Iñárritu trazia consigo isto: o lançamento de um dos melhores filmes de 2026. Mas... Tom Cruise também não fica de fora e fez uma ótima propaganda do novo longa — que ouso dizer que foi maior do que a de seus dois grandes blockbusters lançados recentemente: Top Gun: Maverick e Missão: Impossível – Acerto de Contas. O desprendimento do ator em questão relação ao gênero de ação, nesse novo filme, é visto de maneira interessante. Digger tem muito a dizer em relação a isso (ou não?).

González usa a temática teatral em meio a um filme que se mostra teatral, tanto que os planos de filmagem no primeiro ato são quase parados, com pouco movimento e muito diálogo em apenas um cenário. Logo, essa temática não se torna algo negativo quando a roupagem é usada — apenas o conceito, tal qual Wes Anderson faz com seus filmes. O aspecto de cenário de um palco de teatro quase reformula a narrativa para algo interessante.



Tom Cruise entra na pele do homem mais rico do mundo nessa comédia ácida: Digger Rockwell. Como dito, o elemento "ácido" composto na comédia coloca o filme em outro pedestal, o que logo incentiva o roteiro a tratar a seriedade de forma cômica, justificando algumas camadas desse novo longa.

A força da natureza é algo inevitável, e as geleiras começam a se quebrar. Esse evento ameaça alguns continentes que estão prestes a ser inundados, e apenas um homem tem poder para isso.

Digger é um tipo de filme que aposta alto nos monólogos e no desenvolvimento lento de cada ato, tanto de roteiro quanto de personagens em si. Contudo, algo começa a ser um problema quando, dentro do texto, o senso de urgência começa a ficar de fora — o filme não tenta se remendar para que algo volte ao normal, apenas vai jogando várias coisas ao mesmo tempo para preencher um espaço que já tinha história para contar.

Em pouco mais de meia hora — onde vemos que o conceito da narrativa é concluído após a decisão de Digger —, é perceptível a mudança de clima diante do filme e, principalmente, da essência teatral apresentada no começo do longa. A revelação de um plano sob outro plano é feita: Digger é um teatro em um filme.



Mas... precisava dessa mudança drástica no roteiro? Digger tinha potência nos minutos iniciais se fosse levado mais a sério. A composição da comédia junto ao assunto sério gerou um bom contraste em cena (marca registrada do diretor) e determina que aqui poderíamos ter algo totalmente diferente do resultado final. O teatro é uma das artes mais complexas, ricas e profundas da História, e quando um filme aplica esse meio sem contexto — ou apenas para tentar engrandecer algo que já estava bom —, falha nas duas coisas.

Com um cenário rico, bem detalhado, mas com pouca vida, o novo longa não sabe exatamente onde quer chegar: se é um teatro cinematográfico, se é uma sátira geopolítica ou se é mais um filme de Tom Cruise. Esse emaranhado começa a ser um problema, principalmente em falhas de continuidade.

Cruise sabe pisar em ovos nessa atuação. Mesmo tendo jogo de cintura, o fato de o ator ter se prendido demais ao gênero de ação quase faz desse papel algo genérico em sua carreira, mas não. Tom usa a sua dinâmica de ator diversificado que tinha en/tre as décadas de 80 e 90 para fazer esse personagem, e dá certo. O único problema é que se torna raso quanto ao desenvolvimento — a propósito, todo o filme é raso.



Digger precisava de mais ousadia e se arriscar mais do que aplicar o teatro em cena. O primeiro ato consiste na ideologia do homem poderoso resolvendo um grave problema; o segundo ato desenvolve, de forma quebrada, o método do teatro; e, por fim, há a conclusão de duas histórias ao mesmo tempo: a de Digger e, principalmente, a do teatro.

González usa e abusa de suas temáticas de filmes passados, como por exemplo em Birdman, estrelado por Michael Keaton, que mostra uma abordagem psicológica e quase teatral também. Em Digger, o uso dessa linguagem é contemporâneo, mas se torna descartável. O diretor não quer concluir uma história, ele só quer mostrar que sabe filmar, mesmo tendo vários problemas de montagem.

O filme tem um pouco mais de duas horas de duração, mas o centro dele — ou, em outras palavras, o segundo ato — arrasta-se. A premissa apresentada é arrastada e difícil de desenvolver: quase uma hora inteira de enrolação, uma hora que poderia estar sendo usada para ampliar o conceito de escolha em meio ao problema que o filme relata.

Nos minutos finais desse longa-metragem, temos uma composição interessante e até mesmo interpretativa em relação a ator e personagem: Tom Cruise é Digger e Digger é Tom Cruise. Quando o teatro chega ao fim, vemos a sutileza do ator ao ver as pessoas o aplaudindo, e isso diz muito sobre a carreira de Cruise, que ainda tem muita coisa para mostrar, assim como Digger.



DIGGER é um tipo de filme que aposta alto naquilo que não deveria — o que poderíamos dizer que foi "um tiro no escuro". Logo, a questão que facilmente transformaria a narrativa deste filme em uma das melhores do ano acaba sendo totalmente o contrário, formando, então, um filme "meia-boca" com dois gigantes do cinema, tanto em atuação quanto na direção. Portanto, nem mesmo as façanhas de Tom Cruise salvam este filme.

PS: Tom Cruise não corre neste filme.


 NOTA DO CRÍTICO: 6.9/10.0



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