Dave Logan
CORAÇÃO SELVAGEM (2026) de DAVID AYER - Mais do que sobrevivência: a força da lealdade entre homem e cão diante do caos da natureza.
Após sobreviver a uma queda de avião, um ex-soldado se vê preso na implacável região selvagem do Alasca com seu cão de combate. Juntos, eles enfrentam os elementos da natureza e outros animais em um cenário hostil que provavelmente mataria qualquer outro
Uma coisa já nos primeiros minutos de CORAÇÃO SELVAGEM: a mudança de narrativa que David Ayer, o diretor, fez consigo mesmo é devidamente impressionante, importante e um grande salto para a sua carreira. Se olharmos para trás, notoriamente veremos o desastroso e polêmico Esquadrão Suicida, lançado em 2016 pela mente de Ayer e com roteiro dele mesmo. A ideia do diretor sempre foi mostrar o absurdo em tela — a ação desenfreada e pouco conteúdo em seu roteiro —, e é por isso que seu novo filme é a virada de chave em sua carreira. CORAÇÃO SELVAGEM se mostra um filme firme em sua narrativa, que poucas vezes perde a força para algo maior.

Ao visar as camadas que esse longa nos oferece, fica claro que a proposta dessa história é frisar a resiliência de um veterano de guerra que, após um acidente, precisa cruzar a floresta junto ao seu fiel cão para conseguir salvação. Aqui, temos uma contação de história formada em linha reta, onde o protagonista precisa ir do ponto A ao B, e o que realmente demanda atenção são os desafios da natureza.
O veterano de guerra James (Brad Pitt) vive os seus dias à mercê da liberdade — da natureza em si e em todos os aspectos. Sua companhia de todos os momentos é seu cão de guerra, Odin, que se mostra treinado e prestativo o tempo todo — um cão verdadeiramente escudeiro, protetor e amigo. No início da trama, vemos uma vida pacata, feliz e sem precedentes de algo ruim: apenas o homem, o animal e a vasta natureza selvagem. É aí que o filme começa a criar a sua identidade ao desenvolver e aprofundar a história desses dois amigos. O estresse pós-guerra, os desafios de viver livre e as dores pessoais começam a pairar em tela e, consequentemente, fazem com que o filme aborde algo além de uma simples aventura — faz de sua caminhada um meio de salvação e de desafios, além de, principalmente, entender o conceito de "finito" quanto à vida.

A narrativa começa do final, tudo para entendermos tudo do início, como um flashback onde as coisas se encaixam e formulam a trama como realmente é; o percursor de tudo isso é o cão Odin, o protagonista real desse longa-metragem.
Quando James sofre um ataque cardíaco e isso o faz perder o controle do avião que pilota, ele, assim como o cão, cai na floresta. É daí que o desafio começa a nascer, florescer e crescer. James precisa achar seu cão e um caminho a seguir.
Quando CORAÇÃO SE./LVAGEM começa realmente a se aprofundar diante da vasta mata, o cenário começa a falar por si só, quase se tornando um personagem por conta de tanta grandeza e beleza. Os desafios que James começa a enfrentar vêm diretamente dessa beleza, construindo um contraste perfeito entre arte e caos — assim como o homem desafia outro homem para um duelo, a natureza faz o mesmo com James.
Com isso, o processo de direção começa a ser visto quando alguns detalhes não passam despercebidos e os desafios não são deixados de lado. Vemos uma construção de personagem interessante em James, que sempre encontra força na maior das dores, tudo para livrar seu cão de algo pior. Logo vemos que esse meio protetivo diz muito mais do que possamos ver; CORAÇÃO SELVAGEM quase se torna um filme imersivo por essas questões de dinamismo e equilíbrio entre uma coisa e outra, principalmente pela direção que soube captar bem uma história de sobrevivência bem contada.

Não se pode negar que Brad Pitt realizou uma das melhores e mais profundas atuações de toda a sua carreira — o ator literalmente vive seu personagem à flor da pele e, desde o filme F1, vemos que Pitt não está para brincadeira. James é um personagem que exige liberdade, postura e principalmente autoconfiança para seguir em frente, e Pitt faz disso suas principais armas para deixar James da forma que é. O cão Odin, quase um ator formado em ascensão — que coisa linda e bela quando em cena —, tem a compostura de um cão treinado, e sua fidelidade fala por si só (tragam um prêmio para esse cão!). J.K. Simmons faz uma ponta no filme, mas nada que agregue de fato; o personagem é apenas uma distração e um momento interessante do filme onde ambos falam de vivências.
Com um bom uso da naturalidade das luzes, CORAÇÃO SELVAGEM demonstra uma fotografia justa e bem centrada para mostrar, em grande escala, os cenários das florestas, seja dentro da mata ou fora dela.

CORAÇÃO SELVAGEM é, de todas as formas, um filme sobre resiliência e parceria. Um filme humano cuja trama se baseia na amizade entre homem e cão, mas que diz mais do que pensamos pelo fato de essa amizade ser algo que todos param para ver e, óbvio, para apreciar a beleza da natureza e também a fúria da mesma quando em cena. Um filme onde tudo pode acontecer e, quando acontece, presenciamos algo bom e dinâmico para o cinema de David Ayer.
NOTA DO CRÍTICO: 9.0/10.0




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