Dave Logan
VERITY (2026) de MICHAEL SHOWALTER - Roteiro raso e reviravoltas atropeladas transformam o esperado thriller em uma experiência genérica.
Contratada para ser a escritora fantasma da renomada autora Verity Crawford, a tarefa de Lowen Ashleigh toma um rumo sombrio quando ela descobre notas autobiográficas arrepiantes. Diante de uma série de segredos de família mortais, Lowen luta para separar
Com certeza, Verity entra no pódio dos filmes mais esperados deste ano — e deste segundo semestre, principalmente. A adaptação do livro de Colleen Hoover gerou grande repercussão logo no início da campanha de marketing por levar para as telas de cinema uma história que muita gente queria ver adaptada. Vale lembrar que Verity não é a primeira adaptação de um livro da escritora, já que o cinema também lançou a versão de É Assim que Acaba, que gerou grande polêmica por conta de sua narrativa.
À medida que um livro se torna famoso — hoje em dia impulsionado pelas redes sociais e por criadores de conteúdo desse nicho —, fica claro o interesse dos estúdios e produtoras em realizar uma adaptação. Isso acontece o tempo todo, em todas as épocas, desde que o cinema nasceu em 1895. Os livros são quase o carro-chefe do cinema no que tange a histórias adaptáveis.

Neste romance de Hoover, no qual a trama se propõe a 'abraçar' um thriller psicológico, reforça-se o conceito de uma narrativa estruturada em criar uma dinâmica entre a tensão e o nervosismo quando os personagens estão em cena.
Na história, acompanhamos a vida de Lowen Ashleigh (interpretada por Dakota Johnson, que vem sendo alvo de produções com qualidade narrativa questionável), uma escritora não reconhecida, mas com livros publicados. Em um dia em que uma tragédia acontece, Lowen conhece Jeremy (Josh Hartnett), alguém que ela jamais saberia quem era se o destino não fosse certeiro — ao menos aqui.
Jeremy é marido da famosa escritora Verity Crawford (Anne Hathaway) e contrata Lowen para terminar os livros da franquia de sucesso que sua esposa começou. Lowen aceita o serviço, encara o desafio e entra em uma escuridão onde os segredos começam a se revelar pouco a pouco.
Verity se encontra em uma situação indesejada, jamais pensada ou imaginada por seus leitores, mas a vida lhe deu outro caminho — um percurso mais difícil e complicado do que pensamos.
No início da história, percebe-se que o diretor sente a grande responsabilidade de adaptar a narrativa de Verity para o cinema. Sempre fica algo para trás, sempre falta uma peça do quebra-cabeça e, em um filme onde as suspeitas pairam sobre as cenas, esses elementos necessitam de uma força maior.
Mesmo sem ter lido o livro, fica evidente a falta de densidade ou até de complexidade dentro do roteiro. Tudo se torna previsível e fácil demais, com decisões que facilitam a exposição escancarada de todas as verdades em cena — e é aqui que o filme começa a perder seus pilares de sustentação.
O filme se passa, em grande parte, dentro da casa dos Crawford. Ficar concentrado em um único cenário exige, obrigatoriamente, força nos diálogos e detalhes marcantes para alavancar a trama em sua essência e dar "gás" ao filme.
Lowen começa a sentir o peso da responsabilidade quando respostas indesejadas aparecem durante seu trabalho como escritora. São verdades que mudam o jogo para pior, fazendo a dúvida e a tensão crescerem. Contudo, devido ao roteiro apressado, a construção da personagem central resulta em algo raso, quase sem vida ou propósito. Temos um vislumbre dos tópicos apresentados sobre sua personalidade, mas tudo é explicado e resolvido de forma rápida, pois o diretor prefere investir na tensão dentro da casa e nos segredos que cercam Verity.

Ao analisar o trabalho do diretor Michael Showalter, vemos que ele trabalha o básico em seus personagens para tentar construir algo maior nas cenas, como em seus projetos anteriores — a exemplo de Um Natal Surreal, protagonizado por Charlize Theron, cuja trama acompanha o surto de uma mãe no Natal ao decidir fugir das responsabilidades da época. Como dito, o diretor foca nas questões de cena e cenário; naquele filme, o cenário era a ausência da mãe em casa durante a data comemorativa.
Verity conta com um elenco equilibrado, ainda que irregular. Sem exceção, Anne Hathaway vem mostrando um trabalho incrível no campo da atuação — sendo este seu quarto filme protagonizado no ano. A atriz trabalha bem o silêncio, o olhar e, principalmente, a condução da história por meio de suas palavras, seja qual for a vertente. Dakota Johnson entra na pele da escritora Lowen e não é novidade para ninguém que escolhe seus filmes a dedo, mas seriam essas escolhas sempre ruins ou é a atriz que não se leva a sério? Sua atuação se conforma no genérico, sem alma e sem expressão de sentimentos em cena — mesmo com vários closes em seu rosto, a atriz se mantém no mediano, entregando uma performance apagada. Já Josh Hartnett dá vida a Jeremy, o marido preocupado com Verity que tenta reerguer a família mantendo os pés no chão.
Durante atos previsíveis, Verity guarda sua cartada final para os últimos minutos de projeção, na esperança de que o plot twist seja a peça que faltava para justificar o tom raso do filme. No entanto, isso não acontece. A escolha de empilhar uma reviravolta atrás da outra compromete a linguagem cinematográfica: a falta de tempo entre elas atropela a narrativa, enfraquece o roteiro e perde o sentido, especialmente em um filme com menos de duas horas de duração.

A nova adaptação do livro de Colleen Hoover não atende às exigências da própria atmosfera, fazendo com que a carga genérica se intensifique a cada cena. Isso deixa Verity com uma responsabilidade quase inexistente sobre desenvolver, de forma justa, uma história que poderia, sim, ter sido algo totalmente diferente, mais amplo e simbólico.
NOTA DO CRÍTICO: 5.4/10




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