Dave Logan
A MORTE DO DEMÔNIO: EM CHAMAS (2026) de SÉBASTIEN VANICEK - o novo capítulo expande o universo da franquia, resgata o gore dos anos 80 e prova que o mal de Evil Dead vai muito além da cabana na floresta
Após a perda do marido, uma mulher enlutada busca consolo com seus sogros na isolada casa de campo da família. No entanto, o reencontro logo se transforma em um inferno na Terra quando o Livro dos Mortos liberta forças demoníacas que os transformam em Dea
ANÁLISE:
O primeiro semestre de 2026 apresentou boas produções cinematográficas no gênero de terror. A franquia Evil Dead volta com tudo em seu mais novo filme, onde recupera o classicismo do terror raiz, cuja ideia era dar medo, e não sustos. A Morte do Demônio: Em Chamas sabe onde quer chegar com esse novo capítulo da franquia que se originou em 1981 pela mente criativa de Sam Raimi.

Ao que tudo indica, Evil Dead está com vontade de expandir seu conteúdo — e a cada filme fica evidente que os males do Livro dos Mortos ainda trarão muita destruição e catástrofe. Desde 2013, quando o fogo da franquia foi reacendido, os filmes consistem em apenas uma coisa: contar uma boa história. A Morte do Demônio: Em Chamas é o exemplo perfeito disso — tudo acontece de forma natural (em termos de desenvolvimento narrativo) e mantém toda a pegada dos anos 80 que resgata o gore absoluto, não tem medo das consequências das ações e sabe para onde levar a trama.
Os pontos positivos e a benevolência da atmosfera do terror em A Morte do Demônio: Em Chamas partem exatamente do texto roteirístico. É o tipo de filme que pega o bonde do sucesso do longa antecessor (A Morte do Demônio: A Ascensão), porém isso não quer dizer que a nova produção dependa apenas disso. Muito pelo contrário: o novo capítulo usa esse sucesso a favor de uma boa história, que tem como ponto de partida alguns acontecimentos do filme de 2023.
Toda família tem os seus demônios, e às vezes eles são piores do que o próprio mal. O sexto filme soube exatamente como se glorificar — tanto na narrativa quanto na belíssima produção —, mas há algo a mais que se sobressai: a busca por algo.

Quando o filme começa a dar seus primeiros passos de desenvolvimento, a ideia se torna um tanto quanto jogada, dando a entender que o gancho inicial tenta se assimilar com o de 2023 (que, não sei você, mas para mim é a melhor introdução da franquia e até mesmo do gênero de terror). Na chuva e com duas presas fáceis, o mal reside nas águas de um lago, e o motivo de ainda estar ali consiste nos segredos que a família vítima dos "Deadites" esconde.
Aos trancos e barrancos, mas contendo um índice de violência entre casais, o novo capítulo decide começar a sua história daí, colocando em prática um feito psicológico sobre o verdadeiro mal. Will, um homem de temperamento quente, sai às pressas com seu carro depois de uma discussão com sua esposa, Alice. Enquanto dirige em alta velocidade, ele atropela uma pessoa — cujo corpo abriga um poderoso mal.
O mal — ou a possessão — passa de pessoa em pessoa até alcançar seu objetivo, que não é matar, e sim buscar uma arma que elimine os deadites: uma adaga (quase similar à faca de Ruby na série Supernatural). A busca se baseia nisso. O mal sabe que essa família tem esse poder em mãos graças ao avô que, junto a seus companheiros no passado, criou uma pequena sociedade para manter esse poder e, principalmente, o conhecimento por trás do Livro dos Mortos. Joseph (Hunter Doohan) é o membro mais novo da família e acha o livro e a adaga em seus estudos (obviamente, antes de os desastrosos eventos começarem a acontecer), sabendo que ali reside um vasto conhecimento sobre o oculto e sobre o mal soberano.

Dali para a frente, é "só para trás" (não no contexto de o filme ser ruim, mas de algo terrível acontecer), e é a partir daqui que A Morte do Demônio: Em Chamas começa a ter a sua "noite alucinante". O filme toma forma e cria propósito para deixar tudo com um ar de desconforto, apostando diretamente nisso e trazendo cenas que fazem jus ao material original, principalmente no contexto de criatividade do diretor.
Não apenas esse sexto capítulo, mas a franquia toda respira aliviada por este novo filme familiar de A Morte do Demônio ser bom — bom no sentido de uma excelente produção e de um roteiro bem escrito.
Desde o lançamento de A Morte do Demônio: A Ascensão, em 2023, o conteúdo não fica restrito apenas a cabanas duvidosas no meio do mato; ele tenta impor o mal nas condições cotidianas de cada um, ou em cada fragilidade pessoal. A forma de explorar os feitos do mal em qualquer situação deixa claro que Evil Dead poderia atirar para todo lado e, ainda assim, entregaria uma boa história.

O filme gira basicamente no luto da família após a perda de Will (a primeira vítima). Contudo, há algo que fala mais alto aqui: a presença e o protagonismo de Alice se tornam o ponto central. A Final Girl, que resiste ao sentimento do luto por conta dos maus-tratos de Will quando vivo, transforma quase toda a dor em alívio — e é disso que ela tira forças para o instinto de sobrevivência, para a vontade de liberdade e para, de alguma forma, sair viva daquele pesadelo na "noite alucinante".
Como dito, o longa aborda em seu clímax o conceito de Final Girl (a garota inteligente e estrategista que mata o assassino — neste caso, o demônio) e traz uma boa bagagem dessa ideia. É algo bem visto, bem adaptado e que "cai como uma luva" para esses novos capítulos de Evil Dead.
E a famosa motosserra? O fã antenado nas referências ao personagem Ash (da trilogia clássica) percebe que Evil Dead nunca vai deixar isso de lado. Mesmo que seja por um breve segundo, alguma motosserra vai aparecer (assim como a câmera se movimenta pelo ar, simbolizando a chegada do mal). As referências nesse universo são muito bem-vindas, assim como o banho de sangue, os vômitos e, principalmente, as piadas que o vilão faz com as vítimas, o que quase transforma o longa em um "terrir".
Falar que A Morte do Demônio: Em Chamas é bom é basicamente chover no molhado, pois os trailers já mostravam as suas qualidades. O que realmente importa aqui é o encantamento que o filme causa e como Sébastien Vaniček criou a sua história para ser bela e maligna — mas aquele mal que você sempre vai querer ver. Afinal, Evil Dead é muito mais do que A Morte do Demônio; é uma viagem pela magia oculta do Livro dos Mortos e uma aventura em uma "noite alucinante". Você sairia vivo? Procure a sua motosserra.

NOTA DO CRÍTICO: 9.0/10




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