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Leme,21/08/2026

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Dave Logan

A ODISSEIA (2026) - Christopher Nolan desafia sua própria fórmula ao transformar o épico mitológico de Homero em um estudo sobre o peso do heroísmo.

Odisseu, rei de Ítaca, embarca em uma jornada para retornar para casa após a Guerra de Troia.


A ODISSEIA (2026)  - Christopher Nolan desafia sua própria fórmula ao transformar o épico mitológico de Homero em um estudo sobre o peso do heroísmo.

ANÁLISE:

Quando foi anunciado que Christopher Nolan adaptaria um dos contos mais famosos da mitologia grega para o cinema, rapidamente começaram os boatos e dúvidas sobre essa versão cinematográfica e se Nolan seria o diretor ideal para um filme com esse tema. Como se vê em sua filmografia, a ideia do diretor é sempre olhar para a frente — para o futuro ou para conceitos mais complexos. Nolan adotou isso para si e, a partir daí, construiu seu nome na indústria.

Olhar para trás e contar uma história fora do seu campo habitual representava um grande desafio. A Odisseia, de Homero, é um dos clássicos da rica mitologia grega, escrito há mais de 3.000 anos. No entanto, percebe-se de início que o diretor ousou adaptar esse conto para se desafiar a algo grande — maior do que tudo o que vinha construindo. Para isso, precisou resgatar algo "antigo", mas ainda muito presente.



Essa nova versão cinematográfica do conto de Homero não é inédita no cinema. Sua trajetória nas telas começou cedo, em 1911, quando o conto foi adaptado pela primeira vez. Logo em seguida, temos Ulisses (1954), com Kirk Douglas no papel do personagem central; em 1997, Odisseu dava as caras em mais uma versão; e, em 2024, Ralph Fiennes incorporou Ulisses em O Retorno, filme focado na parte em que o herói de guerra regressa à sua terra natal: Ítaca. Agora, Nolan conta mais uma vez os feitos de Odisseu em sua versão de 2026.

A Odisseia narra o regresso do herói da Guerra de Troia, Odisseu (ou Ulisses), ao seu reino em Ítaca. Porém, esse retorno dura 10 anos, período em que diversos obstáculos e seres o impedem de chegar ao destino. Como a Guerra de Troia durou 10 longos anos de batalha, isso totaliza 20 anos de ausência de Odisseu, transformando Ítaca em uma terra sem lei.


O centro dessa narrativa é o regresso, mas são os desvios que agregam valor à história e enriquecem o conto, fazendo de A Odisseia um clássico absoluto e fundamental. Nolan buscou essa grandeza para o filme por meio de uma produção em grande escala, transformando o cenário em um personagem presente a todo momento. Algumas cenas não precisam de diálogos, pois a maestria está no sentimento transmitido pela encenação.



O roteiro se desenvolve de forma não linear, mesclando passado e presente para simbolizar que a história é contínua. Vemos Odisseu em sua jornada de regresso; Telêmaco e Penélope em Ítaca, necessitando da presença do pai e rei; e a Guerra de Troia sendo mostrada por meio de relatos.

É visceral presenciar essa nova versão. Trata-se de um filme que encanta a todo instante, pois tudo foi pensado para mostrar que o cinema atual tem poder suficiente para ser tão bom quanto o cinema clássico — e boas histórias merecem boas adaptações.

Mas... seria Nolan o diretor ideal para isso? Todos os seus filmes têm um foco marcante — alguns no roteiro, outros na produção em grande escala —, mas todos apresentam uma qualidade acima da média. Em Oppenheimer, o diretor entregou uma cinebiografia sobre o criador da bomba atômica sofrendo pelo peso de seu feito: o olhar desesperado, a ascensão do caos em chamas, o homem caindo em sua própria agonia, um ser exausto de suportar o peso do sucesso. Em A Odisseia, o peso dos atos tem quase o mesmo efeito sobre Odisseu: além de carregar a honra e a glória da Guerra de Troia, ele carrega um imenso cansaço — o cansaço de ser o herói aplaudido e cantado em versos. Matt Damon consegue transmitir essas duas camadas em seu personagem, fazendo de seu Odisseu um homem perdido diante da glória de seus feitos.

Com aproximadamente três horas de duração, o épico "nolanesco" se sustenta em todos os aspectos, principalmente pelo grande elenco reunido. Mesmo os atores com pouco tempo de tela entregam boas atuações e enriquecem o filme. Em outras camadas, o figurino chama a atenção ao retratar o fim da Era do Bronze; o cenário mantém o tom grandioso; e a linha narrativa, embora corte diversos trechos, permanece firme e coesa em relação à obra original.


A longa duração não incomoda porque a história é imersiva. A Odisseia nos convida a participar do regresso de Odisseu — ou a ser cúmplices de seus feitos. A cada ilha em que seu barco atraca, homens são perdidos para a força da natureza e para os perigos que ali residem, como o Ciclope. As criaturas mitológicas trazem um charme e despertam curiosidade. Como de costume, o diretor evita o uso excessivo de efeitos visuais para garantir um impacto visual mais natural e tangível, evidenciando o cuidado da produção.

Contudo, A Odisseia chega como um soco no estômago, encantando e fascinando por ser uma adaptação coesa e justa com o material base. Mesmo sem toda a profundidade necessária em alguns pontos, o filme se mantém firme ao contar o retorno de Odisseu e seus obstáculos. O elenco é numeroso, o que se justifica pela quantidade de personagens da obra original, embora alguns merecessem mais destaque devido ao impacto que têm na jornada do herói.



O filme é um convite ao impressionismo — tudo caminha para isso. A trilha sonora ostenta uma força cênica que fala por si só, dando vigor a cada nota musical e transformando A Odisseia em um épico moderno sobre a consistência do poder e a manutenção do conceito heroico sobre os ombros de um homem cansado.


NOTA DO CRÍTICO: 9.6/10.



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