Dave Logan
O FIM DA RUA (2026) de DAVID ROBERT MITCHELL - Entre o clichê da viagem no tempo e a coragem de reinventar os dinossauros no cinema.
Um evento cósmico misterioso arranca a Oak Street do subúrbio e transporta o bairro para um lugar desconhecido. A família Platt logo descobre que sua própria sobrevivência depende de permanecerem unidos enquanto exploram os arredores.
Não sou de fato um apreciador do cinema de David Robert Mitchell (diretor) e não sabia ao certo o que esperar desse novo filme — mesmo o trailer tendo sido algo que gerou uma enorme curiosidade por conta da premissa que viera a apresentar. Logo, O Fim da Rua mantém a essência do trailer e deixa claro que a carta na manga é sempre o elemento surpresa.
A única coisa que nos vem à mente quando pensamos em dinossauros no cinema são os visuais apresentados no grandioso Jurassic Park, de 1993. Spielberg quis criar uma vertente daquilo que é arqueologicamente e cientificamente correto, que mesmo com a diferença, o visual medonho dos seres que já reinaram na Terra vinha a ser um espetáculo durante os anos. Isso foi errado? Não, e digo mais: isso foi revolucionário ao ponto de muitas outras obras seguirem o mesmo padrão.

Mas... assim como a História, os dinossauros estão perdendo seu espaço no cinema? Em paralelo ao grande meteoro que desastrou o mundo há bilhões de anos, na atualidade vemos a catástrofe se repetindo, mas desta vez na ficção. O meteoro do entretenimento cinematográfico foi a mesmice durante os anos, fazendo com que cada filme apenas recicle aquilo que já foi visto no filme antecessor.
O Fim da Rua chega aos cinemas na esperança de mudar esse consentimento — essa bolha da mesmice e falta de coragem de dar um passo importante para remodelar aquilo que fora revolucionário no século passado. Com essa força de vontade, o filme cria para si um bom status "dinossauresco" que também envolve uma pitada de viagem no tempo. O que poderia dar errado?
Um filme lançado em 2023 que continha uma história sobre viagem no tempo onde um homem é teleportado para a época dos dinossauros e troca tiros com o Tiranossauro Rex numa premissa totalmente quebrada, sem pé nem cabeça (65 - A Ameaça Pré-Histórica), confirma que qualquer coisa pode ser uma história. A viagem no tempo não é algo original no cinema — e nem mesmo para essa nova época —, mas há filmes que abusam da "criatividade" para se tornar apenas um filme feito, e nada mais do que isso.

O pouco cuidado que o roteiro de O Fim da Rua, escrito também pelo diretor, tem traz essa responsabilidade consigo: a de não cair no limbo da chatice ou de transformar a sua trama em algo que agradará a uma massa grande de zero pessoas. O roteiro atende a essa demanda de maneira sutil, tanto que nem se arrisca a se aprofundar no porquê dessa viagem no tempo; apenas acontece, e isso dá certo, já que a pauta é outra coisa: sobreviver.
Um evento cósmico transporta através do espaço-tempo, de uma era para outra, o bairro de Oak Street, onde a família de Greg reside. Sem paradeiro do que pode ter acontecido, essa família — e as pessoas que moram nesse bairro — começam a lutar por suas vidas contra as forças da natureza daquela época: os temíveis dinossauros.
A tensão começa a aumentar quando o "desconhecido" também se torna uma ameaça, e é aqui que o cenário começa a ganhar determinado destaque de uma cena para outra. Logo, o cenário é o campo de batalha e sobrevivência entre o ser humano inexperiente à mercê do pavor contra as criaturas que caçam a todo momento.
Diante da trama central, O Fim da Rua invoca, dentro dessa narrativa, subtramas familiares na tentativa de rechear mais o contexto geral. Mas a pergunta que fica no ar é: havia necessidade de uma briga de marido e mulher diante da realidade imposta? A perspectiva gerada em prol disso começa a desacelerar a trama, formando, então, um pequeno drama casual tentando se engrandecer num problema que já é grande. No gancho do filme — onde vemos uma pacata vila de moradores pacatos —, percebemos a divisão da trama de forma nítida, sendo o segundo ato o mais importante daqui.

Como dito acima, o efeito surpresa de O Fim da Rua é o que comanda tudo, e, junto disso, a curiosidade vem em seguida. Os dinossauros são a atração aqui (mesmo o elenco tendo consigo Anne Hathaway e Ewan McGregor). A visão que temos desses seres sendo adaptados conforme foram é algo para parar e assistir — quando foi que vimos isso? Cheios de pelos e alguns com penas, esses dinossauros foram recriados para mostrar à nova geração como eles realmente foram.
Com alguns acertos e também erros, O Fim da Rua determina para si uma ideia de "Sessão da Tarde" e entretenimento puro. Porque todo mundo está cansado de ver dinossauro no cinema, mas... e com pelos, está cansado? Creio que não, porque é a primeira vez que isso é mostrado.
Os astros são os predadores, os seres de outra época, a atração pré-histórica, mas o elenco também ajuda a manter a quase boa ideia deste longa. Ewan McGregor interpreta Greg, um pai de família cuja missão é proteger quem ele ama. Nosso eterno Obi-Wan Kenobi não pode usar a Força aqui, porque a Força foi criada para outro universo. A forma do ator de manter a calmaria dentro de um campo onde a calma é a última das opções deixa a atuação mais coesa e singela. Anne Hathaway interpreta a mãe e esposa de Greg, Denise, que, em meio a algumas crises, mantém-se firme, pois precisa ser forte para seus filhos (Anne está sendo inimiga do desemprego e da preguiça: neste ano ela teve/tem cinco filmes, onde O Fim da Rua é um deles). Os demais atores deslizam mais do que acertam, mas isso é culpa deles? Nem tanto; isso vem do roteiro.

O Parque dos Dinossauros é fichinha quando os seres humanos invadem (sem querer) o espaço deles. Onde há o processo da cadeia alimentar, em O Fim da Rua tudo se transforma na visão da sobrevivência do mais forte, sejam as pessoas ou sejam os dinossauros. Logo, a sessão desse novo longa vale a sua atenção pela ousadia e pela junção de duas vertentes que foram famosas — e ainda insistem em ser — colocadas num só filme que quase, quase, quase se complica demais no final, mas o diretor se recusa a dar um passo maior do que a perna.
NOTA DO CRÍTICO: 6.0/10




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