Dave Logan
COYOTE VS ACME (2026) de DAVID GREEN - Novo longa da Warner supera bastidores turbulentos e entrega uma das melhores surpresas de 2026.
Após os produtos da Acme falharem vezes demais em sua perseguição incansável ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide contratar um advogado de porta de cadeia para processar a Acme Corporation.
Quem nunca parou para assistir às aventuras do Coyote e do Papaléguas? Era, de certa forma, um tempo de qualidade e um bom entretenimento vindo diretamente dos personagens do Looney Tunes. Todo episódio, por mais cartunesco que fosse, trazia uma pequena e singela mensagem a respeito de alguma coisa, não dita propriamente, mas executada nas entrelinhas de uma façanha para outra.
Só de pensar que esse projeto cinematográfico sofreu demais para chegar às telas de cinema já tende a deixar a curiosidade afiada. O que poderia ter de tão ruim para ser quase cancelado ou até mesmo esquecido em alguma gaveta dos escritórios da Warner Bros.?

Não é uma verdadeira novidade a junção de animação com live-action — isso é visto, mas pouco explorado desde a década de 60, quando Mary Poppins reacendia o fogo do entretenimento de Walt Disney. De maneira simples e totalmente voltada para a magia que essa junção pode ter, os filmes que contêm essas duas camadas são bastante divertidos.
Em 1988, era lançado Uma Cilada para Roger Rabbit, que, até os dias de hoje, se mostra como um clássico do cinema hollywoodiano por ter essa mesma visão de junção. Mas foi só em 1996 que os personagens da Warner tiveram o privilégio de estrear um filme desse tipo; e, junto do maior jogador de basquete da época, Michael Jordan, Space Jam: O Jogo do Século se tornou uma diversão sem igual. (Só fazendo um pequeno adendo: Brendan Fraser também se aventurou com o Patolino em Looney Tunes: De Volta à Ação, de 2003).
BEEP BEEP!
O vilão se torna o protagonista em COYOTE VS. ACME, por conta de como a história percorre um outro caminho sem perder a essência natural dos desenhos — e isso faz com que a trama se torne algo simbólico, diferenciado e gostoso de se consumir. O uso da animação nos personagens e a relação deles com os seres humanos quase se torna natural pelas lentes da câmera e pelas telas de cinema. A junção de ambos, aqui, demonstra um bom trabalho de produção.
O Coyote decide processar a empresa ACME pelo fato de seus produtos nunca darem certo na captura do Papaléguas, e contrata um advogado para levar a causa adiante e tentar vencer o sistema da empresa... usando o próprio sistema dela.

Sem usar uma única palavra dita, o Coyote expõe seus sentimentos através de olhares e caretas típicos dos personagens de Looney Tunes. A forma de linguagem corporal de um desenho é bem mais visível fora do campo da animação do que no desenho animado em si. O Coyote (assim como os outros) não está em seu habitat natural — mesmo que o filme aborde que sim —, por isso há a clareza em ver melhor os detalhes que passam despercebidos quando estão apenas na animação.
Papaléguas e Coyote são presa e predador do mundo real, e aqui não poderia ser diferente. A frustração o leva a querer justiça... Por que esses itens nunca funcionam, sendo que a ACME é poderosa em quase tudo?
Mesmo que Dave Green não seja um diretor de grande destaque por seus filmes anteriores, em COYOTE VS. ACME ele decide abordar em sua direção uma rica construção de personagem e, principalmente, a criação de uma amizade profissional que se torna algo pessoal. O Coyote ultrapassa a linha do ser "mau" para se tornar o parceiro que todos desejam, caso todos entendessem o lado de cada um.

Contendo um bom ritmo de desenvolvimento narrativo, o gancho de COYOTE VS. ACME atende a um pedido dos fãs das antigas que sonhavam com esse momento... A cena inicial coloca em prática a boa e velha caçada das animações, mas com uma produção de grande orçamento. Após isso, o núcleo do filme não entra em desespero e decide se manter firme e coeso o tempo todo — e isso dá certo em cada segundo de duração desta história.
Um filme de tribunal onde estão os personagens da infância de muitos? Sim, mas a obra não cabe apenas dentro de um processo: há cenas em que a liberdade comanda tudo. Antes de entrar no tribunal, o nascimento da amizade entre o Coyote e Kevin começa a tomar forma, sem contar a constante busca pelo Papaléguas.

Com várias participações de personagens especiais, o novo filme do Looney Tunes — que quase foi cancelado em 2023 — é um alívio para o cinema, para a Warner e também para os fãs.
NOTA DO CRÍTICO: 8.9/10




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