Dave Logan
CARA-DE-BARRO (2026) de JAMES WATKINS - A tragédia de um homem comum: como o drama pessoal se tornou o verdadeiro motor de Cara-de-Barro.
Um ator desfigurado se transforma em uma entidade mutante cujo corpo é feito inteiramente de argila.
Sempre houve a dúvida se valeria a pena fazer um filme de um vilão do Batman que não aparece tanto na mídia — ou que não se enquadra entre os principais adversários do Homem-Morcego. Com isso, esse capítulo da DC sobre o Cara-de-Barro tinha dois caminhos a serem trilhados: o de uma coisa boa e "nova", ou um desastre total.
Quando os filmes dos vilões do Homem-Aranha eram lançados, ficava mais evidente que era algo tenebroso de se aprofundar — de dar sequência —, mas a Sony sempre empurrava mais um filme para o público. Podemos deduzir que essa dúvida sobre o filme do Cara-de-Barro nasceu por conta dos filmes da Sony: mesmo sendo universos diferentes, o conceito cinematográfico é quase o mesmo.

Mas... Cara-de-Barro vale a sessão? Assim como qualquer outro filme. O novo universo da DC caminha de forma diferente; aqui a ideia de mostrar o "lado B" dos personagens tende a ter uma condição cênica diferente — pé no chão, para ser mais exato. Como vimos na recente série de TV da HBO, Lanternas, que traz consigo uma trama investigativa que foge da conduta cósmica dos personagens verde-esmeralda, e deu certo. Nesse novo filme, o processo é quase o mesmo, onde a ficção tem pouco a acrescentar mediante um filme que se leva a sério e desenvolve o seu arco principal de maneira dramática.
James Watkins, o diretor, trabalha de forma decente o uso da atmosfera do terror — mas não abusa disso, apenas contém a essência do gênero. Isso transforma a narrativa em algo coeso e, de certa forma, sério consigo mesmo. Cara-de-Barro é um filme de drama bem realizado para mostrar a frustração de um homem que perde tudo da noite para o dia, algo que se engrandece pela queda de um homem e o nascimento de um monstro — essa transição de perspectivas de vida se mantém viva o filme todo.

Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um homem em ascensão no cinema, com a vida decolando graças ao sucesso de suas atuações e filmes, vê sua vida indo por água abaixo quando é atacado por um gangster local que mutila seu rosto, fazendo com que Matt perca sua glória, sua vida e, principalmente, sua carreira. O desespero o faz correr atrás de uma tecnologia molecular criada pela Doutora Caitlin (Naomi Ackie), e isso faz com que ele tenha uma determinada mutação que ambos não sabiam que ocorreria. Ali nascia o Cara-de-Barro.
Gotham, uma cidade rica em sujeira, corrupção e máfia, também se torna o lugar de justiça do Homem-Morcego, mas... também o berço de criaturas que vão além da compreensão social. É aí que o Cara-de-Barro entra: ele foi forjado através do desespero e agora habita o submundo de uma cidade tomada pelo crime. A essência da cidade apresentada nesse novo filme é similar ao cenário de The Batman (2022): uma cidade suja, cinza e com um alto grau de violência. Em Cara-de-Barro, temos tudo isso, exceto a violência.

De vilão a anti-herói, o roteiro atende a esse quesito em questão, mostrando uma "caminhada" diferente em relação à vilania do personagem e de como tal ato é abordado em cena — sabemos que o Cara-de-Barro é um vilão, mas aqui é sua vida que está em jogo — e também a sua vingança pessoal.
O bom uso dos efeitos especiais nesse filme é algo interessante, que gera curiosidade — e, em algumas cenas, desconforto. Cara-de-Barro transita entre o efeito prático e o efeito especial, e essa mescla muda a concepção do entendimento do "sofrimento" do personagem central, mas também molda a criatura que está nascendo dentro de Matt.
A narrativa não reinventa a roda da dramaticidade em cena com um rótulo de terror. Mesmo se vendendo como uma "obra de terror", Cara-de-Barro só tem a ideia de um terror, com traços, mas o que demanda aqui é o drama pessoal e, principalmente, a queda de um homem em ascensão.
Não se pode deixar de lado que a dúvida sobre o filme era grande. O Cara-de-Barro não tem a devida popularidade que deveria, mas aqui ele alcança seu pedestal e se mostra como um grande vilão que, possivelmente, será o adversário do Batman em The Brave and the Bold. A chance é grande e coesa.

Vindo do nada e se tornando algo, Cara-de-Barro é um filme simples, mas que sabe conduzir sua linha narrativa de forma certeira, mantendo sua essência dramática como carro-chefe, sem deixar de lado o visual gótico com terror no meio. O longa é uma história adaptada de um personagem de histórias em quadrinhos do universo do Batman e, com isso, mesmo sendo sério, não esquece que sua origem vem de uma HQ. Um filme básico e bem-feito: um arroz com feijão bem temperado que não precisa de nenhum acompanhamento.
NOTA DO CRÍTICO: 7.5/10.0




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